Palavra do Bispo

Agosto de 2016 01/08/2016
Estimados irmãos e irmãs;
A paz esteja convosco!

1. Chegado o mês de agosto proponho-me vos falar sobre a Assunção de Maria, uma das verdades (dogmas) da fé cristã e católica. Acerca de Maria são quatro as verdades contidas em nosso credo, também celebradas na liturgia. No Natal comemoramos o nascimento humano de Jesus Cristo, Deus feito homem. Professa nossa fé que Maria conservou intacta virgindade ao dar à luz o Autor da vida. A virgindade antes, durante e depois do parto surge como consequência de prerrogativa ainda maior, isto é, da graça de ser Mãe de Deus, mistério celebrado a 1º de janeiro. Os outros dois dogmas marianos são a Imaculada Conceição, comemorado a 8 de dezembro e a Assunção corpórea de Maria ao céu, festejada a 15 de agosto.

2. Pio XII proclamou o dogma da Assunção no dia 1º de novembro de 1950, solenidade de todos os Santos. Se a proclamação do dogma é recente, a devoção a Nossa Senhora Assunta integra a piedade popular desde os primórdios da Igreja. Nos primeiros séculos celebrava-se a “dormição” de Maria, cercada de muitas lendas, algumas até com cunho evidentemente herético. Entretanto, nenhuma dessas celebrações separava Maria de seu Filho glorioso. A celebração chamava-se também “Trânsito de Maria”, e já então divergiam as opiniões sobre a morte ou não morte da Mãe de Jesus. Essas celebrações eram cercadas de muito carinho, sobretudo numa fértil e impressionante imaginação sobre os modos como Jesus teria vindo buscar sua Mãe e quem vinha em companhia dele para levar Maria aos céus. Forte foi o papel popular na elaboração da primeira compreensão da Assunção de Maria ao céu.

3. Já no século V temos documentos da festa da Assunção no dia 15 de agosto, sempre enumerada junto com as festas marianas da Natividade, da Apresentação, da Anunciação e da Purificação de Maria. Por ocasião destas comemorações, os Santos Padres pronunciavam suas homilias marianas, fixando assim, através dos séculos, uma doutrina teológica que, seguramente, foi sustentada, alimentada e celebrada pela piedade popular. Papa Pio XII, na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus (Deus generosíssimo) para a declaração do dogma, lembra que “nas homilias e orações para o povo na festa da Assunção da Mãe de Deus, os Santos Padres e os grandes doutores falavam de uma festa já conhecida e aceita. Com a maior clareza a expuseram; apresentaram seu sentido e conteúdo com profundas razões, colocando especialmente em plena luz o que a festa tem em vista: não apenas que o corpo morto da Santa Virgem Maria não sofrera corrupção, mas ainda o triunfo que ela alcançou sobre a morte e a sua celeste glorificação, a exemplo de seu Unigênito Jesus Cristo”.

4. Um desses Santos Padres, sempre citado, inclusive pelo próprio Papa Pio XII, é São João Damasceno (650-750). É dele o famoso texto: “Convinha que aquela que guardara ilesa a virgindade no parto, conservasse seu corpo, mesmo depois da morte, imune de toda a corrupção. Convinha que aquela que trouxera no seio o Criador fosse morar nos tabernáculos divinos. Convinha que a esposa, desposada pelo Pai, habitasse na câmara nupcial dos céus. Convinha que, tendo demorado o olhar em seu Filho na cruz e recebido no peito a espada da dor, ausente no parto, o contemplasse assentado junto do Pai. Convinha que a Mãe de Deus possuísse tudo o que pertence ao Filho e fosse venerada por toda a criatura como mãe e serva de Deus”.

5. De tudo o que até o presente se disse e se escreveu sobre a Assunção de Maria ao céu, podemos extrair orientações precisas para nossa vida cristã. Em primeiro lugar a Assunção como coroamento da luminosa vida da Mãe de Deus. Com efeito, na assunção contemplamos Maria admitida à glória do céu. Glória reservada a todos os que pertencem a Cristo (cf. Gl 5,24). A esperança da ressurreição final, plenitude da existência humana e cristã, aparece já cumprida em Maria. Dito de forma muito simples, podemos afirmar que Maria já passou pela ressurreição que nos aguarda. Como criatura, coparticipante da nossa humanidade, Maria foi ressuscitada por Deus, assim como nós cremos ser no dia da eternidade. De fato, no Credo dizemos crer na ressurreição da carne.

6. Depois, precisamos ver neste mistério o sinal do amor divino chamando-nos ao significado da união com Cristo. A assunção é coroamento da vida de Maria intimamente unida ao Filho. Na união com Cristo está a razão da nossa esperança. Esperança futura que transforma o presente. Conservando o olhar em Deus, Maria fez-se terreno fértil à ação da Graça. Antes de ser assunta no corpo, Maria se elevou no coração. Seu modo de experimentar a existência humana nos dá perfeita descrição do convite feito em cada celebração eucarística: “Corações ao alto!” Com o coração elevado na sintonia que promove comunhão plena com a vontade de Deus, Maria se mostra pedagoga do gênero humano, também vocacionado a seguir a verdade e crescer em tudo naquele que é sua cabeça, Cristo, o Senhor (cf. Ef 4,15).

7. Por fim, cumpre notar que o Concílio Vaticano II desenvolveu o aspecto eclesiológico e escatológico deste dogma. A glorificação de Maria torna-se sinal para todo o povo de Deus a caminho. Povo sustentado pela segurança e pela esperança de que a promessa de “vida nova” em “novos céus e nova terra” irá se realizar como já se realizou em Maria. A Assunção de Maria é apresentada como estímulo e ponto de referência para todos nós que caminhamos rumo à perfeição em Deus. “Assim como no céu, onde já está glorificada em corpo e alma, a Mãe de Deus representa e inaugura a Igreja na sua consumação no século futuro, da mesma forma nesta terra, enquanto aguardamos a vinda do Dia do Senhor, ela brilha como sinal da esperança segura e consolação diante do Povo de Deus em peregrinação” (Lumen Gentium, 68). Com alegria celebremos a solenidade da Assunção de Maria, no Brasil, transferida para o domingo, 21 de agosto.

Que por sua intercessão perseveremos na esperança e cresçamos na caridade. Por suas preces todo o povo fiel de nossa Diocese seja abundantemente abençoado por Deus.

Francisco Javier Delvalle Paredes
Bispo de Campo Mourão

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